Capim / Grass

Paisagem de Capim (Grass Landscape)

Quando eu pensei sobre o tema da minha próxima série de aquarelas, após ter feito muitas pinturas sobre capim, eu queria que ela tivesse a figura de mulheres entres paisagens quase se desfazendo, e eu também queria que as mulheres mimetizassem a natureza. Depois de muita pesquisa de imagem campestre eu nomeei a série como Paisagem de Capim, sem muito pensar a respeito. Eu, de certa forma, respeito muito minhas decisões espontâneas e confio no meu instinto. Sabia que era por aí, e preparei os desenhos, praticamente rabiscos e alguns contornos básicos. Quando eu terminei de pintá-los, algumas pessoas me perguntaram sobre o nome da série e eu me flagrei explicando-o sem muita convicção. Alguns dias depois eu me perguntava “por que raios esse nome?”. E a resposta surgiu tão rápida e nitidamente que eu mesma me senti surpresa. Toda a série tem características técnicas muito distintas das anteriores: cores, composição e estilo. Combinados, esses detalhes formam uma individualidade marcante.

ballet_Edna Carla Stradioto_watercolor in hahnemuhle anniversary edition 425gsm 36x48cm_2018

Usualmente eu não temo as cores, e independente do aspecto técnico clássico da aquarela, eu desafio a transparência e abuso da paleta. Não na Paisagem de Capim. Restringi, a princípio organicamente, as cores para tons muito delicados. Esses tons me ajudaram na composição leve e delicada que eu queria, na qual prevalece a claridade e o contraste é realizado basicamente por meio da captura de luz, atuando como iluminação natural, mas focal. O estilo foi definido já na primeira pintura, tendo vindo à tona de maneira imprevista, mas decorrente de uma série de estudos realizados sobre textura envolvendo a fluidez e dinâmica do movimento sobre o capim; o capim se transformou numa alegoria importante na minha pintura desde fevereiro de 2018. A paisagem é marcada por borrões que formam os contornos das imagens, aplicados sobre um fundo bem aguado e com transparência apenas para definição de contornos quase indefinidos. O traçado de cabelos e capim foram feitos com pinceladas curtas e com mais pigmento. Ao olhar de perto, existe um enorme emaranhado de pequenos traços coloridos, mas que de longe, criam as imagens. Mais do que isso, esses fragmentos de cores se fundem e juntos eles arquitetam o movimento do vento nos cabelos e no capim. Daí o nome, as aquarelas formam paisagens, que por sua vez são formados por pinceladas que imitam capim.

Por que essa recorrência com o capim? Como eu já disse, o capim tem sido usado quase unicamente como influência na minha pintura ultimamente. Surgiu do encantamento quando da descoberta do Capim dos Pampas, em viagem ao Sul do Brasil, e se deslocou inteiramente para o campo das minhas paixões. Refletindo sobre o impacto dessa planta na minha vida fica claro que a motivação principal se deve à extrema beleza do movimento das hastes do capim ao vento, como uma dança, quase hipnotizante. No entanto, essa é apenas a explicação óbvia. O meu olhar, depois de conhecer o Capim dos Pampas, foi descobrir outros tipos de capim e achá-los todos lindos, e descobrir que meu olhar também se encanta com o capim mais ordinário. Estamos cercados por capim, e nem nos damos contas. Eles crescem à margem de calçadas, ruas, e estradas, sem serem notados, sem serem apreciados, nem podados. Eles enfeitam terrenos sem construções, a gente chama de “mato”; “precisa chamar alguém para cortar o mato”, não é assim? Capim é sinônimo de descuido da jardinagem, e teimosamente cresce em qualquer espaço, lutando contra cimentos, queimadas, cortadores de grama. Os capins ornamentais ainda possuem algum charme, e estão espalhados e semeados em belos jardins, ocupando lugar de destaque na organização espacial da arquitetura de exteriores de lugares pomposos. Mas continuam sendo capins. A inspiração pela Cortaderia Selloana se transformou em uma motivação tão forte, que eu fiquei meses sem pintar retratos, me concentrando em estudos e pinturas sobre a planta. Eu percebi que estava alegoricamente contando uma história ao situar o Capim dos Pampas como elemento central das minhas aquarelas. A produção imagética sobre essa temática me fez produzir uma alegoria sobre mim. O Capim dos Pampas sou eu.

B62CE741-E224-4685-871D-0ECE5D18A6B2

A série Paisagem de Capim, por sua vez, retrata mulheres que estão em paz consigo mesmas e com a vida. As paisagens ao redor delas reflete o estado emocional delas e atua como extensão espacial em completa harmonia com a matéria. Por isso eu trato essa série de pinturas como uma história sobre o empoderamento feminino, cada uma delas traz uma narrativa em si, mas em conjunto elas retratam a mulher como protagonista da sua própria vida. O capim foi tratado como elemento simbólico para representar o mundo exterior das mulheres. Organicamente, eu fiz pinceladas rápidas e finas para relacionar os elementos visuais das plantas e dos cabelos das mulheres, ligando-as aos elementos naturais e eles a elas. A paleta de cores é muito singela, para exprimir a delicadeza da alma feminina, eu usei Green Earth, Indian Yellow, Payne’s Grey, Alizarim Crimson Deep, Warm Sepia e Caput Mortum (segundo nomenclatura da Sennelier Aquarelle).  Mas é na composição sutil de cada uma das pinturas que se encontra a ideia de que o universo da mulher é profundamente interligado com a natureza: geradora de vida e mantenedora de si mesma. Todas as pinturas são aquarelas feitas em papel Hahnemuhle Anniversary Edition 425gsm, tamanho 36×48 cm (14’x19’), produzidas entre junho e julho de 2018. A série total conta com 18 aquarelas.

overflow_Edna Carla Stradioto_watercolor in hahnemuhle anniversary edtiion 425gsm 36x48cm_2018
watercolor by Edna Carla Stradioto

Grass Landscape

When I thought about the subject of my next series of watercolors, after having done many paintings on grass, I wanted to have the figure of women in the landscape which was almost undoing, and I also wanted women to mimic nature. After much research of country images, I named the series as Grass Landscape, without much thinking about it. In a way, I respect my spontaneous decisions very much and trust my instincts. I knew I should go forward and I prepared the drawings, practically scribbles and some basic contours. When I finished painting, some people asked me about the name of the series and I found myself explaining it without much conviction. A few days later I wondered “Why the hell I picked this name?” And the answer came so quickly and sharply that I was surprised myself. The whole series has very different technical characteristics from my previous ones: colors, composition and style. Combined, these details form a striking individuality.

Usually I do not fear the colors, and regardless of the classic technical aspect of the watercolor, I challenge the transparency and abuse of the palette. Not in Grass Landscape serie. Restricting the colors, at first organically, for very delicate tones. These tones helped me in the light and delicate composition that I wanted, in which clarity prevails and the contrast is basically realized through the capture of light, acting as natural but focal illumination. The style was already defined in the first painting, having come to light in an unexpected way, but as a consequence of sereval studies on texture involving the fluidity and dynamics of the movement on the grass; the grass has become an important allegory in my painting since February 2018. The landscape is marked by blurs that form the contours of the images, applied on a well-watered background and with transparency only to define almost indefinite contours. On top of it, strokes of hair and grass were made with short brushstrokes and with more pigment. When looking closely, there is a huge tangle of small colored traces, but by far, create the images. More than that, these fragments of colors merge and together they architect the movement of the wind in the hair and the grass. That is the way I chose the name, the watercolors form landscapes, which in turn are formed by brushstrokes that imitate grass.

thumb_IMG_9313_1024

Why this recurrence with grass? As I’ve said, grass has been used almost solely as an influence on my painting lately. It arose from the enchantment when I discovered Pampas Grass, on a trip to the South of Brazil, and it moved entirely to the field of my passions. Reflecting on the impact of this plant in my life it is clear that the main motivation is due to the extreme beauty of the movement of the grass stems to the wind, like a dance, almost hypnotizing. However, this is just the obvious explanation. My look, after knowing Pampas Grass, have changed to discover other types of grass and I find all of them beautiful, and it was responsible to train my look to find out grass around me and find myself  also enchanted with the most ordinary grass. We are surrounded by grass, and we are not even aware. They grow by sidewalks, streets, and roads, unnoticed, unappreciated, not pruned. They adorn abandoned lands, we call them “bush”; we say “you must call someone to cut the bush,” doesn’t we? Grass is synonymous of neglect gardening and stubbornly grows, fighting against cements, fires, lawnmowers. Ornamental grasses until possess some charm, and are scattered and sown in beautiful gardens, occupying a prominent place in the spatial organization of the outside architecture of pompous places. But they are still grasses. The inspiration for Cortaderia Selloana became such a strong motivation for me that I spent months without painting portraits, concentrating on studies and paintings about the plant. I realized that I was allegorically telling a story by placing Pampas Grass as the central element of my watercolors. The imagistic production on this subject made me produce an allegory about myself. Pampas grass is me.

The Grass Landscape series, in turn, portrays women who are in peace with themselves and with life. The landscapes around them reflect their emotional state and act as spatial extension in complete harmony with matter. That is why I treat this series of paintings as a story about female empowerment, each of which brings a narrative in itself, but together they portray the woman as the protagonist of her own life. Grass was treated as a symbolic element to represent the outer world of women. Organically, I made quick, thin strokes to relate the visual elements of women’s plants and hair, linking them to natural elements and one to each other. The palette of colors is very simple, I used Green Earth, Indian Yellow, Payne’s Gray, Alizarim Crimson Deep, Warm Sepia and Caput Mortum (as nomenclature of Sennelier Aquarelle). The palette express the delicacy of the feminine soul, but it is in the subtle composition of each of the paintings that one finds the idea that the universe of woman is deeply intertwined with nature: life-generator and maintainer of herself. All paintings are watercolors made in Hahnemuhle Anniversary Edition 425gsm, size 36×48 cm (14’x19′), produced between June and July 2018. The total series has 18 watercolors.

 

thumb_IMG_9316_1024

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s