Em português

Edna Carla Stradioto

Watercolor painter from Brazil

Quais são os eixos temáticos da sua obra?

Sem dúvida, meu principal eixo temático é o estilo figurativo. Por mais que eu me desafie a criar paisagens fantásticas, eu percebo que não consigo abandonar a representação plástica que define os limites do figurativo. No figurativo, me encanta especialmente os retratos, mas recentemente eu fui influenciada pelo encantamento das paisagens de capim.

Percebo que existe cada dia mais a influência do capim nos meus cenários. Minhas pinceladas estão incorporando o movimento do capim, as direções do vento nas plantas, e toda a fluidez etérea do ar que pode ser capturada pelo pincel para a criação das imagens que procuro retratar cada vez mais.

Como definiria o corpo e como são os personagens que retrata como parte da paisagem? 

Procuro não ser realista. Não tenho a pretensão de fazer pinturas que capturem realisticamente aquilo que retrato.

Eu me desafio apenas a representar o mundo com a sensibilidade e a beleza que eu encontro na minha relação com o que vejo. Meus retratos procuram demonstrar a individualidade e a luz das pessoas por meio de olhares marcantes. Assim, minhas pessoas não são as pessoas como elas são, mas como eu as amo e como eu as homenageio com minhas aquarelas.

Muitas das minhas paisagens escondem pequenas pessoas, suas silhuetas e seus vultos porque eu gosto de pensar que em cada lugar há uma pessoa para apreciar comigo aquele ambiente. Nem sempre elas são perceptíveis, muitas vezes eu prefiro escondê-las porque eu tento direcionar o olhar do espectador para percorrer os capins e o movimento que eu crio com minhas pinceladas.

Prioritariamente eu pinto mulheres. O mundo já foi protagonizado o suficiente por homens, né? Mas não é por isso, é porque eu sou mulher e posso entender o olhar feminino. Minha voz narrativa das minhas imagens tem muito da minha personalidade, ainda que não sejam autorretratos.

Como definiria a paisagem e de onde surge seu interesse por retratá-la? 

Fiquei anos muito focada na produção de retratos e me fascina a expressão do olhar, a qual eu exercitei exaustivamente. Mas, confesso, estava precisando de um desafio, ainda que não percebesse.

Em férias com a família ao sul do Brasil no começo de 2018, descobri, ainda na estrada, capins como plumas ao vento. Campos e mais campos nas marginais da rodovia entre São Paulo e Paraná. Caules finos e de cerca de 2m de altura, com o que parecia um espanador rosa-claro na ponta, dançando ao vento.Enlouqueci. Eu precisava parar e tocar naquilo, ver com as mãos, descobrir se tinha cheiro, sentir com meu tato e meu olhar. Entrei no meio do mato para alcançar a planta. Imensa, linda, perfeita. Tinha vontade de ficar ali para sempre. Não fazia ideia do que era aquilo. Coisa mais linda. Tocou minhas paixões intensa e devastadoramente. Toque suave, hastes delicadas cheias de pequenas sementes, milhares em cada tufo, formando em conjunto espiguetas rosadas que iam do claro ao rosé, e que, em movimento parecem flutuar. Peguei duas flores para mim, pareciam mesmo uma forma nova de espanador de pó, de um rosa brutalmente envelhecido na base, e que ia gradualmente clareando nas pontas.

Eu tinha que saber o que era aquilo. Tirei foto e filmei. Mandei para uma amiga agrônoma para ela me contar que planta era aquela. Ela respondeu na hora: Cortaderia Selloana, mais conhecido como Capim dos Pampas.

Enlouqueci na internet com as fotos desse tipo de planta. Pirei.

Quando voltei para casa, não existia nada que me fizesse voltar aos retratos. Fiz uma série de estudos com a planta. Tentei todas as técnicas que eu conhecia em aquarela para retratar da maneira mais etérea o capim. Entre estudos, criei uma primeira série de aquarelas que eram compostas por paisagens com Capim dos Pampas. Depois dela, resolvei me aprofundar ainda mais na pintura deles, e criei uma segunda série, que retratava em fundo branco, as Hastes em destaque. Não satisfeita, comecei uma terceira série, que eu chamei de Hairy Flower Spikelets. É a haste doCapim dos Pampas em extrema proximidade, ocupando todos os espaços do papel, com uns três níveis de aproximação focal.

Em cerca de três meses eu produzi umas 100 aquarelas só com o tema de Capim dos Pampas. Eu estava exclusivamente produzindo apenas paisagens.

Depois de pintar tanto Capim dos Pampas, eu comecei a reparar nos tipos de capim, como são lindos, como o movimento do vento faz a mesma paisagem se alterar, ganhar vida, e é capaz até mesmo de mudar a gradação de luz e cores do ambiente. Então, resolvi retratar várias paisagens com capins variados. Aos poucos minha pintura foi ganhando montanhas, caminhos, cores, luzes, e aspectos diferentes. Quando eu percebi, eu já havia mudado minhas pinceladas para tentar acompanhar o movimento que eu queria registrar. Foi assim que comecei a criaras paisagens de capim, e foi assim que comecei a transpor essas pinceladas para os retratos.

É um momento de revelação para mim. Eu vejo muito do impressionismo no meu trabalho atual, e não me incomodo com as comparações. Pelo contrário, fico envaidecida. Quem me dera!

Estou fazendo uma série de estudos em retratos do meu filho adolescente nesse momento. A primeira série que eu fiz dele, eu me senti desconfortável, porque eu achei que não cheguei aonde eu queria. Nessa segunda série, está sendo ainda mais desafiador e eu estou fazendo vários estudos para que eu consiga transpor mais ainda as pinceladas de capim para os rostos, mas ainda não consegui atingir minhas expectativas. É um pouco frustrante, mas, por outro lado, eu me motivo a me superar.

O que você encontra na aquarela, como técnica e linguagem, que não encontra em outros materiais? 

Eu só trabalho com um suporte aquarela em papel. Foi uma escolha desde o início, quando tinha 17 anos. Apesar de gostar muito de pintura e amar os impressionistas, eu só pinto óleo e acrílico como estudo para voltar mais sensível ao meu campo de trabalho. No entanto, eu normalmente, mesmo para estudos, pinto aquarela.

Para mim a aquarela tem toda a versatilidade e flexibilidade possível. É uma técnica contemporânea, mas clássica; limpa, mas que possibilita as camadas de tinta e a tonalização; delicada, mas intensa; precisa, mas translucida. Enfim, todas as qualidades que poderia existir para desafiar um artista, existe na aquarela.

Qual a sua própria definicão de arte? 

            A arte é o encontro, o diálogo, a travessia.

Quais são suas principais influências como artista?  

            Sempre tive um gosto saliente pelo mundo artístico.

            Aos 8 anos de idade eu lia poesia brasileira e portuguesa diariamente. Lia os clássicos da literatura em prosa e adorava analisar as ilustrações, especialmente das capas.

            Participava de saraus de poesia e exposições de arte do colégio. No colégio eu pude praticar tudo porque tínhamos aulas práticas e eu adorava tudo, pintura com tinta, desenho com lápis, giz ou caneta; vitral; escultura; bordado; pirógrafo; entalhar em madeira; encapar caixas com tecidos; papel marchê.

            Fiz violão, piano e flauta, entre 12 e 14 anos.

            Fiz aulas de dança por mais de quinze anos.

            Mas foi a viagem a Paris, aos 17 anos, e em particular, uma visita a Giverny que movimentou uma paixão pelo impressionismo. Monet se tornou a maior influência na minha vida, e quando voltei da França ao Brasil, comecei a ter aulas de pintura, só aquarela.

            Quando voltei a pintar, muitos anos depois de ter abandonado totalmente os pinceis, teve uma artista em particular que me influenciou e me motivou a voltar: a italiana Agnes Cecile. Eu passava horas admirando cada uma das aquarelas dela, os vídeos, olhando cada detalhe como quem olha para a razão de viver. Foi ela, sem saber, que me ajudou todos os dias em que eu olhava para as tintas, os papeis e os pinceis, e pensava que era tarde demais para voltar.

Quais são seus artistas visuais favoritos?

            Muitos. Nossa, eu amo tudo.

            A minha maior admiração é pela Agnes Cecile, a quem tive a honra de conhecer no ano passado e com quem fiz um workshop. O que mais me impressiona nela é a capacidade de reinvenção no estilo de retratos, como a pintura dela é transparente e suave, e como ela captura o olhar das pessoas de forma tridimensional.

            Também amo fotografia. Passo horas olhando imagens. Meu artista favorito nessa categoria é o Sebastião Salgado, um brasileiro que registra o mundo por um olhar único, transformador, arrebatador, crítico.

Poderia mencionar algum livro ou autor que lhe inspire e faça parte dos seus processos criativos? 

            Atualmente faço mestrado e estudo o ilustrador norte-americano N.C.Wyeth nas lendas arthurianas. Tem sido emocionalmente voltar a manuscritos do início da Idade Média e conhecer lendas orais, que viraram manuscritos escrito sem nanquim em papiros, e que deram início aos romances de cavalaria que ainda hoje são tão relevantes e tão significativos.

            Meu autor favorito é Guimarães Rosa, que tem a medida certa da brutalidade dos ertão brasileiro, a criatividade mais marcante que eu já encontrei em prosa e com o trabalho de linguagem, e a capacidade de retratar histórias de pessoas comuns, explorando sensibilidades universais, como nenhum outro.

Por que decidiu ser artista plástica? 

            Infelizmente, apesar do incentivo da minha família em estudar vários ramos da arte, tudo isso não devia passar de hobby. Para eles, a arte não deveria envolver uma carreira profissional, mas apesar ser uma prática ocasional. Quando eu disse que eu queria fazer artes plásticas, eles me impediram. Como eu era muito nova e respeitada muito a opinião deles, fui para a área de administração de empresas.

            Havia passado uma década que eu tinha ido para a faculdade e eu resolvi que precisava voltar à universidade, para fazer o que eu gostava. Comecei a estudar para o vestibular, quando descobri que estava grávida. Prometi para mim mesma que os dez anos seguintes eu me dedicaria à maternidade e deixaria meus planos para depois. Quando meu filho tinha nove anos, meu marido percebeu como eu estava infeliz com a carreira financeira e me apoiou muito para largar aquilo, e me incentivou a voltar à pintura. Esse foi meu gatilho, o apoio do meu marido.

            Fui para a universidade estudar literatura e voltei a pintar. Comecei a postar minhas aquarelas no Instagram e quando me dei conta, tinha gente que eu nem me conhecia me elogiando, recebia convites para exposições e pedidos de pinturas, e tudo foi evoluindo até as exposições variadas, coletivas e solos, no Brasil e no exterior.

Menciona uma frase ou citação que defina sua inspiração ao criar. 

            Existe uma canção de Raul Seixas, brasileiro, que diz “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

É quase como um mantra. Para mim é muito importante sentir que estou evoluindo, que estou me reinventando, que eu saio da minha zona de conforto, que eu habito fora do quadrado, que estou em contato comigo mesmo, mas também com o novo.

E, acima de tudo, eu me permito ter minhas opiniões próprias mesmo que elas sejam só minhas. Minha autonomia, minha independência e minha consciência precisam estar em consonância com as minhas ideologias, mesmo comas imperfeições e as falhas que eu possa ter. Evoluir não é ser melhor do que os outros, é quando eu consigo ser melhor do que eu mesma, um pouco por vez, sem me comparar, sem me diminuir ou me aumentar perante alguém. Ser melhor não é sobre ser perfeita, mas sobre ser uma pessoa em sintonia comigo mesma, encontrar mais paz dentro e fora da minha mente, e perceber que, mesmo num mundo tão cheio de incongruências, eu encontro todo dia um motivo para seguir com dignidade.